“Eu sei que é difícil de entender, porque já se passaram vinte e três anos, mas sempre que nos cruzamos na rua fugimos um para cada lado. E pensar que não ficamos um com o outro porque, resolvi subitamente casar. Que ficou ele a pensar? Que pensa agora para fugir de mim? Porque fujo eu dele? Quando meu marido me pergunta, respondo que não o vi. Se ao menos me desse o divórcio. Mas sei que se sair de casa perco os meus filhos para sempre. Depois nem sei se ele continua casado ou se a mulher dele já morreu. Será que já morreu? Que se passa comigo que me vejo a desejar a morte de alguém que nem conheço e a ser-me insuportável a presença de meu marido. O que é isto?
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
VIDAS - TEMPO DE MORRER

Estou sentado ao lado da tua cama e vejo-te na semi obscuridade da sala de observações. Estás deitado e em silêncio. Já se me acabaram as palavras de consolação e fico a ouvir o rumor que nos chega do serviço de urgência. Tinhas sido internado umas horas antes, porque teu estado de saúde se agravara, depois dum longo caminho de sofrimento. Que te posso dizer? Olhávamo-nos sem palavras. Súbito, na tua lassidão, balbuciaste como quem se despede. “Sinto-me tão só”. E fechaste os olhos para sempre.
sábado, 18 de outubro de 2008
EMOÇÕES - DESAMOR

Quando eu era pequena, antes de ir para a escola, meu pai não via mais ninguém além de mim. Eu era tudo para ele. Gostava de me levar sempre com ele para todos os lugares. Não passava sem me levar com ele. A partir daí tudo ficou diferente, sem eu nunca descobrir o que motivou esse afastamento. Era capaz de compreender se tivesse nascido um irmão, mas eu sou filha única. Desde esse tempo começou a tratar-me com ar de desprezo. Em tudo o que me diz só existe agressividade e desdém, de tal maneira que muitas vezes perguntava a minha mãe se ele era mesmo o meu pai. É que se não fosse, tudo ficava mais tranquilo dentro de mim. Mas minha mãe sempre mo confirmou. Agora que tenho 20 anos, bem digo que isto já não me interessa, mas sei que arrasto este vazio dentro de mim.
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
EMOÇÕES - A RECORDAÇÃO

Tem os olhos fixos no chão, mãos pousadas no regaço e a voz é quase inaudível. Refere que vive com os pais, que tem trinta e cinco anos e trabalha numa fábrica. Há quatro anos que tem uma ligação amorosa com um homem casado e que não consegue separa-se dele. Os encontros são muito raros devido à distância, mas mesmo assim não consegue romper. Há quinze dias tomou a resolução de separar-se dele e nesse encontro calculou tudo para ficar grávida. Sei que meus pais me vão expulsar de casa, que não vão aceitar, mas ao menos fica-me uma recordação dele!
VIDAS - UMA INFÂNCIA
Da minha infância recordo-me que me levaram com ano e meio para outra casa e de entrar numa sala onde estava um caixão com uma pessoa. Ali fiquei a viver. Algumas vezes penso se é possível ter esta lembrança nessa tão pequena idade, mas esta imagem vive bem nítida dento de mim. Até aos treze anos nunca soube quem eram os meus pais. A senhora com quem vivi todo esse tempo, minha ama, contou-me que minha mãe foi lá a casa e deu-me a ela. Depois foi para a França e desapareceu. Vivi com essa senhora, a quem tinha falecido o marido, quando fui para lá viver, até aos treze anos e onde nada me faltou. Um dia minha mãe veio-me buscar. Minha ama chorava, (como ela chorava!), sem coragem para me levar a casa de meus pais! Fui sozinha para a casa que ela me indicou, com as minhas coisas. Do outro lado da rua, sem eu saber, mas já os conhecendo, viviam os meus seis irmãos, minha mãe e o meu pai. Passei a partilhar a cama com todos os meus irmãos numa pobreza infinita e comecei a trabalhar numa fábrica, para no fim do mês entregar o dinheiro a minha mãe.segunda-feira, 1 de setembro de 2008
VIDAS - O SEGREDO

Estamos casados há sete anos mas não temos nada em comum, nada um com o outro. Minha vida é meu filho de cinco anos e eu. Meu marido chega sempre tarde e não me lembro de uma só noite termo-nos deitado juntos. Claro que tenho tudo planeado para me separar, mas neste momento não tenho condições. Meu marido não sabe nada disto, nem lhe passa pela cabeça tal ideia. Sabe, tenho um quarto em casa com as minhas coisas, as coisas que são mesmo minhas e que vou levar quando for embora.
terça-feira, 26 de agosto de 2008
VIDAS – A AMANTE

Agora já lá vão vinte e cinco anos e é tudo mais tranquilo, até porque sei que nada espero dali, a não ser um telefonema esporádico ou um encontro pessoal ainda mais espaçado. No início, com o entusiasmo dos encontros, cheguei a pensar que tudo ia ser diferente, que um dia ele ia deixar a esposa e vinha para mim. Agora sei que tudo vai continuar na mesma e vai acabar quando tiver que ser. Também vivo com a convicção que se ele não tivesse qualquer sentimento para comigo, já me teria deixado. Faço tudo para não introduzir desgraça naquela família. Vivo sozinha com isto, não o partilhando com ninguém, pois sei que ninguém iria aceitar esta minha vida. Mas é esta que vai ser a minha vida.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
EMOÇÕES - LUMINOSIDADE

"De manhã cedo quando vou trabalhar, tenho de caminhar ao longo da praia. O sol ainda não nasceu, mas uma luminosidade tenue invade todo o céu. O silêncio da manhã surge interrompido pelos primeiros sons do dia. O murmúrio das ondas e a placidez das águas no mar calmo, invadem-me o peito de emoção, porque tudo me parece assombrosamente belo. E choro comovida, por esse espectáculo único e radiante."
EMOÇÕES - LÁGRIMAS

"Súbito fujo para o quintal e derramo-me a chorar, sem encontrar sentido nisso tudo e surgem-me ideias estranhas e difíceis de contar. Apetece-me o abandono da vida. Por fim sossego desse estrebuchar de soluços, entro noutro mundo e não encontro a razão de tantas lágrimas. À volta nada se passa, a vida é normal com marido e filhos nos rituais dos dias. Então que é isto que arrasto, que desamparo enche o meu peito desta forma dorida. Às vezes vejo-os com um olhar rápido a lerem-me a cara e encontro nesses olhares um misto duma tristeza igual. Só sei que a vida ficou longe da sonhada e que para trás tudo está irremediável."
VIDAS - A INFÂNCIA
sábado, 21 de junho de 2008
VIDAS - A MORTE
Vejo-te com teus olhos imensos a falar de ti, mas uma sombra tingia a tua face. Tinhas um aspecto nórdico na tua estatura delicada e na forma alongada do teu rosto. Disseste-me como te chamavas e referiste-te aos teus vinte e cinco anos e à licenciatura que acabavas de terminar e às expectativas que tinhas no teu primeiro trabalho. Falaste-me que andavas ansiosa pelo que tinha acontecido ultimamente. Súbito teus olhos inundaram-se de lágrimas e disseste-me: Tenho um linfoma e vou morrer!
sexta-feira, 20 de junho de 2008
EMOÇÕES - JUVENTUDE
Passou pelo quiosque e comprou o jornal. Aquela hora da manhã havia pouca gente no shoping. Começou por um passeio pelas montras, para dar um sentido aquele dia tão especial, e por isso merecia caminhar sem sentido, sem pressas e sem destino. Sentia-se com forças e com vitalidade e minguem lhe daria os setenta anos que hoje ia comemorar. Não ia comprar nada, mas simplesmente olhar descontraído para as coisas e pessoas, sem ter qualquer obrigação a cumprir. Tinha saúde, estava bem disposto e presumara na toilete, o que lhe dava boa aparência. Mirou-se no reflectir do vidro duma montra e gostou de se ver. A menina dentro no balcão olhou e sorriu. Sentou-se num banco e com o jornal sobre os joelhos, observou as pessoas que passavam. O tempo quente de fim de verão convidava a poucas roupas e encontrou nas jovens que passavam um enlevo que o espantou. Nunca vira como agora, tanta graciosidade no andar, na pele sedosa, no meneio das ancas, nos seios firmes ou libertos, no sorriso, nos lábios, nos penteados descontraídos, nos olhares desprevenidos, na frescura do olhar, na espontaneidade do sorriso, e na elegância das mãos deslizando pelos cabelos. E veio-lhe à memória o tempo em que foi jovem e achou que nunca sentiu tanta beleza nas mulheres como naquele momento.
E o lago dos seus olhos encheu-se de humidade na lembrança da sua juventude irrecuperável.
E o lago dos seus olhos encheu-se de humidade na lembrança da sua juventude irrecuperável.
VIDAS - INFÂNCIA
Da infância recorda a fome, que aliviava comendo broa cheia de bolor e esperando que o pai chegasse do mar para comer os restos de comida, que sobrasse. Depois fala dos tempos em que tinha 10 anos e acompanhava a mãe a vender peixe pelas aldeias e das longas caminhadas que fazia, deixando-lhe os pés descalços macerados das pedras dos caminhos rústicos. E um dia ouviu a mãe contratar com uma cliente a sua permanência naquela casa como empregada doméstica. Não sabe o tempo que lá passou, pois aos 10 anos muitas coisas desaparecem da memória, porque são demasiadas dolorosas para lembrar. Um dia sabendo o caminho que a mãe percorria no seu trabalho, embrulhou num lenço os restos de roupa que tinha e esperou-a. As lágrimas convenceram a mãe que a levou de volta a casa, onde passou a mesma fome do início, mas agora acompanhada pelo grupo de irmãos. Súbito pelos 12 anos surge um tio de férias do Brasil, casado e sem filhos. Quando lhe perguntou se queria ir com eles, a sua vida encheu-se de modificações. E lá seguiu para o Brasil para uma vida sonhada mais tranquila. Conta então que viveu pela primeira o único tempo de exaltação da sua vida. Tinha 15 anos e conheceu um rapaz por quem se apaixonou. Namoraram pouco mais de um ano. Um dia ele adoeceu e morreu.
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