quarta-feira, 25 de novembro de 2009

EMOÇÕES - DESGRAÇA

Minha vida foi enchida de trabalho. Nem me deram tempo de frequentar a escola. Cresci trabalhado na terra, cavando a terra de noite à luz do lampião, para de dia vender coisas pequenas na berma da estrada; cebolas, cenoura, enfim o que a terra dava quando dava. Hoje com setenta e três anos não consigo fazer qualquer esforço. Mas era com a labuta de todos os dias, que serenava as agruras da minha vida. Agora parada, tudo se me enrola na cabeça, tirando-me o sono, fazendo dos meus dias este desassossego infindável e introduzindo a desgraça na minha cabeça e na minha vida. Meus filhos bem me dizem que é tudo mentira, mas eu sei que algo de estranho se passa dentro de minha casa!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

EMOÇÕES - DESEJOS

“Eu sei que é difícil de entender, porque já se passaram vinte e três anos, mas sempre que nos cruzamos na rua fugimos um para cada lado. E pensar que não ficamos um com o outro porque, resolvi subitamente casar. Que ficou ele a pensar? Que pensa agora para fugir de mim? Porque fujo eu dele? Quando meu marido me pergunta, respondo que não o vi. Se ao menos me desse o divórcio. Mas sei que se sair de casa perco os meus filhos para sempre. Depois nem sei se ele continua casado ou se a mulher dele já morreu. Será que já morreu? Que se passa comigo que me vejo a desejar a morte de alguém que nem conheço e a ser-me insuportável a presença de meu marido. O que é isto?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

VIDAS - TEMPO DE MORRER


Estou sentado ao lado da tua cama e vejo-te na semi obscuridade da sala de observações. Estás deitado e em silêncio. Já se me acabaram as palavras de consolação e fico a ouvir o rumor que nos chega do serviço de urgência. Tinhas sido internado umas horas antes, porque teu estado de saúde se agravara, depois dum longo caminho de sofrimento. Que te posso dizer? Olhávamo-nos sem palavras. Súbito, na tua lassidão, balbuciaste como quem se despede. “Sinto-me tão só”. E fechaste os olhos para sempre.

sábado, 18 de outubro de 2008

EMOÇÕES - DESAMOR


Quando eu era pequena, antes de ir para a escola, meu pai não via mais ninguém além de mim. Eu era tudo para ele. Gostava de me levar sempre com ele para todos os lugares. Não passava sem me levar com ele. A partir daí tudo ficou diferente, sem eu nunca descobrir o que motivou esse afastamento. Era capaz de compreender se tivesse nascido um irmão, mas eu sou filha única. Desde esse tempo começou a tratar-me com ar de desprezo. Em tudo o que me diz só existe agressividade e desdém, de tal maneira que muitas vezes perguntava a minha mãe se ele era mesmo o meu pai. É que se não fosse, tudo ficava mais tranquilo dentro de mim. Mas minha mãe sempre mo confirmou. Agora que tenho 20 anos, bem digo que isto já não me interessa, mas sei que arrasto este vazio dentro de mim.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

EMOÇÕES - A RECORDAÇÃO


Tem os olhos fixos no chão, mãos pousadas no regaço e a voz é quase inaudível. Refere que vive com os pais, que tem trinta e cinco anos e trabalha numa fábrica. Há quatro anos que tem uma ligação amorosa com um homem casado e que não consegue separa-se dele. Os encontros são muito raros devido à distância, mas mesmo assim não consegue romper. Há quinze dias tomou a resolução de separar-se dele e nesse encontro calculou tudo para ficar grávida. Sei que meus pais me vão expulsar de casa, que não vão aceitar, mas ao menos fica-me uma recordação dele!

VIDAS - UMA INFÂNCIA

Da minha infância recordo-me que me levaram com ano e meio para outra casa e de entrar numa sala onde estava um caixão com uma pessoa. Ali fiquei a viver. Algumas vezes penso se é possível ter esta lembrança nessa tão pequena idade, mas esta imagem vive bem nítida dento de mim. Até aos treze anos nunca soube quem eram os meus pais. A senhora com quem vivi todo esse tempo, minha ama, contou-me que minha mãe foi lá a casa e deu-me a ela. Depois foi para a França e desapareceu. Vivi com essa senhora, a quem tinha falecido o marido, quando fui para lá viver, até aos treze anos e onde nada me faltou. Um dia minha mãe veio-me buscar. Minha ama chorava, (como ela chorava!), sem coragem para me levar a casa de meus pais! Fui sozinha para a casa que ela me indicou, com as minhas coisas. Do outro lado da rua, sem eu saber, mas já os conhecendo, viviam os meus seis irmãos, minha mãe e o meu pai. Passei a partilhar a cama com todos os meus irmãos numa pobreza infinita e comecei a trabalhar numa fábrica, para no fim do mês entregar o dinheiro a minha mãe.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

VIDAS - O SEGREDO


Estamos casados há sete anos mas não temos nada em comum, nada um com o outro. Minha vida é meu filho de cinco anos e eu. Meu marido chega sempre tarde e não me lembro de uma só noite termo-nos deitado juntos. Claro que tenho tudo planeado para me separar, mas neste momento não tenho condições. Meu marido não sabe nada disto, nem lhe passa pela cabeça tal ideia. Sabe, tenho um quarto em casa com as minhas coisas, as coisas que são mesmo minhas e que vou levar quando for embora.