Da minha infância recordo-me que me levaram com ano e meio para outra casa e de entrar numa sala onde estava um caixão com uma pessoa. Ali fiquei a viver. Algumas vezes penso se é possível ter esta lembrança nessa tão pequena idade, mas esta imagem vive bem nítida dento de mim. Até aos treze anos nunca soube quem eram os meus pais. A senhora com quem vivi todo esse tempo, minha ama, contou-me que minha mãe foi lá a casa e deu-me a ela. Depois foi para a França e desapareceu. Vivi com essa senhora, a quem tinha falecido o marido, quando fui para lá viver, até aos treze anos e onde nada me faltou. Um dia minha mãe veio-me buscar. Minha ama chorava, (como ela chorava!), sem coragem para me levar a casa de meus pais! Fui sozinha para a casa que ela me indicou, com as minhas coisas. Do outro lado da rua, sem eu saber, mas já os conhecendo, viviam os meus seis irmãos, minha mãe e o meu pai. Passei a partilhar a cama com todos os meus irmãos numa pobreza infinita e comecei a trabalhar numa fábrica, para no fim do mês entregar o dinheiro a minha mãe.quarta-feira, 17 de setembro de 2008
VIDAS - UMA INFÂNCIA
Da minha infância recordo-me que me levaram com ano e meio para outra casa e de entrar numa sala onde estava um caixão com uma pessoa. Ali fiquei a viver. Algumas vezes penso se é possível ter esta lembrança nessa tão pequena idade, mas esta imagem vive bem nítida dento de mim. Até aos treze anos nunca soube quem eram os meus pais. A senhora com quem vivi todo esse tempo, minha ama, contou-me que minha mãe foi lá a casa e deu-me a ela. Depois foi para a França e desapareceu. Vivi com essa senhora, a quem tinha falecido o marido, quando fui para lá viver, até aos treze anos e onde nada me faltou. Um dia minha mãe veio-me buscar. Minha ama chorava, (como ela chorava!), sem coragem para me levar a casa de meus pais! Fui sozinha para a casa que ela me indicou, com as minhas coisas. Do outro lado da rua, sem eu saber, mas já os conhecendo, viviam os meus seis irmãos, minha mãe e o meu pai. Passei a partilhar a cama com todos os meus irmãos numa pobreza infinita e comecei a trabalhar numa fábrica, para no fim do mês entregar o dinheiro a minha mãe.
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1 comentário:
Esta história faz-me lembrar a infância da Amália... que viveu a vida toda com o medo da solidão e do desprezo... tudo fruto da sua infância e de ter sido deixada aos cuidados de uma avó e de só ter visto a sua mãe quando era adolescente.
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