quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

VIDAS - FELIZ E LIVRE


Tem um rosto expressivo num corpo ainda jovem, apesar dos seus quarenta e um anos. Fala das suas filhas de nove e cinco anos. Diz que não consegue andar sozinha ou sair sem companhia para qualquer lado, assim como tem grande insegurança quando fica só no seu estabelecimento. Refere que o marido trabalha com ela todos os dias inclusive aos domingos de manhã. Entende que tudo resulta da vida que tem e da relação que vive com o marido. Diz que casou com ele para ser mais livre e ele diz-lhe que ela não era a mulher que ele amava. E que tudo começou por o marido iniciar um delírio de ciúmes, não a deixando sair de casa, porque sempre que ela saia, mesmo acompanhada, ele achava que ela se ia encontrar com um amante. Então tudo ficou tão insuportável que ele teve de consultar um médico, tendo melhorado, mas a vida continuou na mesma Sempre pensou divorciar-se quando os seus pais morressem, mas agora que eles se foram, continua não sabe bem porquê, se por medo da vida se complicar, se por causa das filhas, se por ter medo dele. Há anos que não fazem amor e muitas noites sonha que está divorciada e é feliz e livre.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

EMOÇÕES - TEMPO DE MORRER


«Estou a precisar de morrer. As coisas, por mais leves que sejam, tocam-me com uma intensidade inusitada, convertendo meus dias numa permanente inquietação. Tenho demasiadas experiências para continuar a viver sem sobressaltos e escasseiam-me espaços de esquecimento, onde me possa refugiar.Estou a precisar de morrer. Tenho a memória a abarrotar de coisas vividas que carrego e arrasto pelos caminhos da solidão. Dantes habitava-me uma leveza que a minha memória com facilidade fazia deslizar para lugares luminosos e agradáveis de viver. Agora tudo pesa. Quero recuar para planícies mais suaves, mas tudo fica tão presente e pejado de sombras e recordações de lágrimas inúteis.Estou a precisar de morrer, já que não vislumbro nas fímbrias que restam deste tapume, que me cerca a vida, um rasto de planura verde para me deitar. Sei que me tentas suavizar com a frescura azul do teu olhar, mas eu tornei-me num sopro sombrio do passado e incapaz de revestir o presente dessa teia luminosa e brilhante de paraíso.Perdi a capacidade do brilho, de pôr nas entrelinhas das palavras aquele fio de água que se estreita entre as pedras e se espraia nas superfícies de musgo verde. Estou incurável como a árvore seca no quintal, à espera que a desenterrem ou o vento sopre na força precisa para a reclinar docemente na terra. Perdi o encanto com que te seduzia sem nada fazer, só porque irradiava de mim a beleza que transportava ao vento e espalhava no passar. Habituei-me ao olhar acolhedor com que me envolviam e agora percorro os meus enviesados caminhos, já me satisfazendo a viver na penumbra dum olhar qualquer.Estou a precisar de morrer. Escasseia-me a imaginação com que dantes revestia a languidez dos dias, o espanto de encontrar uma beleza infinda num rosto de jovem que se cruza na rua, e, desaparecendo deixava em mim uma sensação indizível de ter passado rente ao paraíso. E conseguia descobrir aquele gesto único e inusitado da tua mão, a escoar-se de leveza pelo meu cabelo. E via a tua mão aconchegando a minha pele suada de desejo, no veludo do teu corpo aberto para eu entrar e perdermo-nos os dois num voo de eternidade.Estou a precisar de morrer. Já não consigo lembrar-me da alegria incontável de passearmos de mãos dados rente às flores e aos pássaros, nos jardins da cidade, que tu iluminavas com pequenos gestos do corpo e com o inclinar lento da tua cabeça, como se a fosses pousar mansamente no meu ombro. E era tudo tão simples na complexidade da vida. E esqueci da intensidade e sonoridade da tua fala, desse gesto primeiro de levantar o telefone para te ouvir, no começo das nossas primeiras semanas de bulício interior.Estou a precisar de morrer. Já não há escadas para subir ao teu encontro e sorrir com a tuas mãos estendidas a iniciar abraços que se convertiam em ternura que escorria dentro de nós.Estou a precisar de morrer. Saltam-me à mente e espalham-se como raízes, nódoas de raiva e traição, que escurecem o tecido com que construímos a nossa vida e que eu quisera perfeita de inocência e plana como este campo de ceara verde na primavera.
Estou a precisar de morrer.»

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

VIDAS - SORRISO

É uma mulher elegante, muito bem cuidada nos seus quarenta e um anos. Tem dois filhos já maiores de idade. Trabalha num comércio todos os dias excepto aos domingos. Consome-a estas dores permanentes de cabeça que não sabe donde vem. Já fez exames e mais exames e tudo está normal. O marido trabalha noutra área, mas insiste com ela para deixar o comércio, porque tem ciúmes dos clientes. É uma mulher expressiva de sorriso aberto e sedutor, que o marido não suporta que partilhe com os clientes. "Tu és o meu inferno"- diz-lhe o marido. Na ânsia de a ter procura-a sofregamente para ter relações íntimas. Bebe e passa os tempos livres com os amigos. Estes lançam-lhe piropos. “Tua mulher está cada vez melhor”.
Fica a pensar como está longe da vida sonhada e o tempo a passar e a beleza essencial desperdiçada entre quatro paredes.

EMOÇÕES - UMA SOMBRA NO ROSTO

Naquele dia trazia uma sombra no rosto e de olhos baixos disse-me que o problema era sentir que não sabia se o que estava a viver era um sonho ou realidade. "Não sei explicar isto doutro modo, mas é como se estivesse a viver na fronteira do real e do imaginado. Não, não estou triste nem alegre, nem sequer transporto qualquer ansiedade e sei que meu discurso é coerente em todas as coisas que falo. Adivinho também que não me compreenda ou que ninguém me possa compreender. Estou bem, unicamente acontece que estou a viver num estado onde não habitam as certezas da realidade.Claro que sei que não estou louca. Sabe como são alguns sonhos em que temos dificuldade em ver as coisas com se houvesse pouca luz ou tivéssemos uma espécie de cegueira que escurece o olhar: É quase isso. Ou como estivéssemos dentro dum filme que estamos a ver, ou fossemos uma personagem dum quadro. Tem diagnóstico para isto? Existe definição para estes estados de alma, que não seja dizerem-nos que estamos loucos?

VIDAS - O AMANTE

Ao fim de muitos anos na consulta por ansiedade, hoje finalmente resolveu contar um pormenor da sua vida, que segundo ela pode contribuir para andar assim. "Sei que é difícil dizer isto, mas eu tenho outra pessoa na minha vida desde há 15 anos. Estou casada há vinte mas tenho tido uma relação com outro homem durante todo este tempo. Meu marido não sabe, claro, nem meus filhos. A vida em casa corre sempre normal sem problemas. Mas agora o que me tem feito andar mais ansiosa é que descobri que o homem com quem tenho essa relação, tem uma amante. Vivo desassossegada com ciúmes dela. Não percebo porque quer outra mulher se tem a mim há tantos anos? Sei também que ele já foi amante duma minha irmã, que na altura era casada e agora é viúva. Era amante de nós duas. Mas era a minha irmã e isso não me incomodava. Agora com outra que eu também conheço, é que me é insuportável".

EMOÇÕES - PRESSÁGIO

Subitamente assola-me uma tristeza, como se uma barragem se desmoronasse e espalhasse uma onda de negrume pela planície. Com ela vem um presságio desconhecido de parte incerta e uma sombra escura desliza sobre as águas tornando tudo irreconhecível. O sol perdeu o brilho tornando-se num núcleo fosco e opaco. A vida perdeu tonalidades e cores, não há sabores para as coisas e os músculos perderam a força do riso. Não há lágrimas para tradução desta solidão imensa. Dentro de mim não vislumbro esperança nem futuro e o que parecia só medo transforma-se numa dor incomensurável. Sei que ninguém vai entender isto, que não há compreensão humana para tamanha desgraça e vejo nos olhos dos outros esse abandono que tem o sentido de loucura. Que faço desta escuridão infindável? Donde vem ela? O que é isto?"

VIDAS - ABANDONO

É uma jovem muito bonita, nos seus vinte e nove anos. Seu aspecto é descuidado e a face tem uma palidez depressiva. Trabalha como relações públicas numa empresa. Vive com uma irmã dois anos mais nova. Esta e o namorado dormem lá em casa. Não tem namorado, já teve mas este deixou-a há uns meses. Não suporta este abandono, porque está apaixonada por ele. As lágrimas correm pelo rosto ao contar estas lembranças. Nos pedaços da sua história que vai contando, fala do pai. Herdeiro duma família com grande fortuna, abandonou a mãe há uns anos atrás, após se ter arruinado economicamente e fugido para outro país. A mãe que nunca tinha trabalhado entra em depressão, mas para sustentar a família viu-se obrigada a arranjar empregos precários. Durante alguns anos a mãe arrastou-se pela cidade de fato de treino e cigarro na boca. Finalmente há um ano suicidou-se.
Agora a irmã e o namorado ocupam a casa em desordem e enchem-lhe a noite de suaves gemidos.