
«Estou a precisar de morrer. As coisas, por mais leves que sejam, tocam-me com uma intensidade inusitada, convertendo meus dias numa permanente inquietação. Tenho demasiadas experiências para continuar a viver sem sobressaltos e escasseiam-me espaços de esquecimento, onde me possa refugiar.Estou a precisar de morrer. Tenho a memória a abarrotar de coisas vividas que carrego e arrasto pelos caminhos da solidão. Dantes habitava-me uma leveza que a minha memória com facilidade fazia deslizar para lugares luminosos e agradáveis de viver. Agora tudo pesa. Quero recuar para planícies mais suaves, mas tudo fica tão presente e pejado de sombras e recordações de lágrimas inúteis.Estou a precisar de morrer, já que não vislumbro nas fímbrias que restam deste tapume, que me cerca a vida, um rasto de planura verde para me deitar. Sei que me tentas suavizar com a frescura azul do teu olhar, mas eu tornei-me num sopro sombrio do passado e incapaz de revestir o presente dessa teia luminosa e brilhante de paraíso.Perdi a capacidade do brilho, de pôr nas entrelinhas das palavras aquele fio de água que se estreita entre as pedras e se espraia nas superfícies de musgo verde. Estou incurável como a árvore seca no quintal, à espera que a desenterrem ou o vento sopre na força precisa para a reclinar docemente na terra. Perdi o encanto com que te seduzia sem nada fazer, só porque irradiava de mim a beleza que transportava ao vento e espalhava no passar. Habituei-me ao olhar acolhedor com que me envolviam e agora percorro os meus enviesados caminhos, já me satisfazendo a viver na penumbra dum olhar qualquer.Estou a precisar de morrer. Escasseia-me a imaginação com que dantes revestia a languidez dos dias, o espanto de encontrar uma beleza infinda num rosto de jovem que se cruza na rua, e, desaparecendo deixava em mim uma sensação indizível de ter passado rente ao paraíso. E conseguia descobrir aquele gesto único e inusitado da tua mão, a escoar-se de leveza pelo meu cabelo. E via a tua mão aconchegando a minha pele suada de desejo, no veludo do teu corpo aberto para eu entrar e perdermo-nos os dois num voo de eternidade.Estou a precisar de morrer. Já não consigo lembrar-me da alegria incontável de passearmos de mãos dados rente às flores e aos pássaros, nos jardins da cidade, que tu iluminavas com pequenos gestos do corpo e com o inclinar lento da tua cabeça, como se a fosses pousar mansamente no meu ombro. E era tudo tão simples na complexidade da vida. E esqueci da intensidade e sonoridade da tua fala, desse gesto primeiro de levantar o telefone para te ouvir, no começo das nossas primeiras semanas de bulício interior.Estou a precisar de morrer. Já não há escadas para subir ao teu encontro e sorrir com a tuas mãos estendidas a iniciar abraços que se convertiam em ternura que escorria dentro de nós.Estou a precisar de morrer. Saltam-me à mente e espalham-se como raízes, nódoas de raiva e traição, que escurecem o tecido com que construímos a nossa vida e que eu quisera perfeita de inocência e plana como este campo de ceara verde na primavera.
Estou a precisar de morrer.»
Estou a precisar de morrer.»
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