quinta-feira, 3 de julho de 2008

EMOÇÕES - LUMINOSIDADE


"De manhã cedo quando vou trabalhar, tenho de caminhar ao longo da praia. O sol ainda não nasceu, mas uma luminosidade tenue invade todo o céu. O silêncio da manhã surge interrompido pelos primeiros sons do dia. O murmúrio das ondas e a placidez das águas no mar calmo, invadem-me o peito de emoção, porque tudo me parece assombrosamente belo. E choro comovida, por esse espectáculo único e radiante."

EMOÇÕES - LÁGRIMAS


"Súbito fujo para o quintal e derramo-me a chorar, sem encontrar sentido nisso tudo e surgem-me ideias estranhas e difíceis de contar. Apetece-me o abandono da vida. Por fim sossego desse estrebuchar de soluços, entro noutro mundo e não encontro a razão de tantas lágrimas. À volta nada se passa, a vida é normal com marido e filhos nos rituais dos dias. Então que é isto que arrasto, que desamparo enche o meu peito desta forma dorida. Às vezes vejo-os com um olhar rápido a lerem-me a cara e encontro nesses olhares um misto duma tristeza igual. Só sei que a vida ficou longe da sonhada e que para trás tudo está irremediável."

VIDAS - A INFÂNCIA

Vinha com o neto. Vestia de preto e tinha a face marcada por traços que desenhavam amargura. Adivinhava-se pela humildade da postura dos dois, que viviam no campo. Ao seu lado cabisbaixo o neto em silêncio, pálido, de braços descaídos sobre as pernas. Quando a avó começou a falar a sua voz exprimia uma tranquilidade inesperada. Tinha oito anos e trazia-o à consulta só porque era um menino muito triste. E não tinha razão para isso, pois tudo estava bem na vida dele e na família. Não lhe faltava nada. Não sei donde lhe vem esta tristeza. Não sei porque anda sempre assim desanimado e com esta expressão nos olhos. E acrescenta com uma sabedoria vinda lá das profundezas das gerações: É que se não é feliz agora, quando é que irá ser?