sábado, 21 de junho de 2008

VIDAS - A MORTE

Vejo-te com teus olhos imensos a falar de ti, mas uma sombra tingia a tua face. Tinhas um aspecto nórdico na tua estatura delicada e na forma alongada do teu rosto. Disseste-me como te chamavas e referiste-te aos teus vinte e cinco anos e à licenciatura que acabavas de terminar e às expectativas que tinhas no teu primeiro trabalho. Falaste-me que andavas ansiosa pelo que tinha acontecido ultimamente. Súbito teus olhos inundaram-se de lágrimas e disseste-me: Tenho um linfoma e vou morrer!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

EMOÇÕES - JUVENTUDE

Passou pelo quiosque e comprou o jornal. Aquela hora da manhã havia pouca gente no shoping. Começou por um passeio pelas montras, para dar um sentido aquele dia tão especial, e por isso merecia caminhar sem sentido, sem pressas e sem destino. Sentia-se com forças e com vitalidade e minguem lhe daria os setenta anos que hoje ia comemorar. Não ia comprar nada, mas simplesmente olhar descontraído para as coisas e pessoas, sem ter qualquer obrigação a cumprir. Tinha saúde, estava bem disposto e presumara na toilete, o que lhe dava boa aparência. Mirou-se no reflectir do vidro duma montra e gostou de se ver. A menina dentro no balcão olhou e sorriu. Sentou-se num banco e com o jornal sobre os joelhos, observou as pessoas que passavam. O tempo quente de fim de verão convidava a poucas roupas e encontrou nas jovens que passavam um enlevo que o espantou. Nunca vira como agora, tanta graciosidade no andar, na pele sedosa, no meneio das ancas, nos seios firmes ou libertos, no sorriso, nos lábios, nos penteados descontraídos, nos olhares desprevenidos, na frescura do olhar, na espontaneidade do sorriso, e na elegância das mãos deslizando pelos cabelos. E veio-lhe à memória o tempo em que foi jovem e achou que nunca sentiu tanta beleza nas mulheres como naquele momento.
E o lago dos seus olhos encheu-se de humidade na lembrança da sua juventude irrecuperável.


VIDAS - INFÂNCIA

Da infância recorda a fome, que aliviava comendo broa cheia de bolor e esperando que o pai chegasse do mar para comer os restos de comida, que sobrasse. Depois fala dos tempos em que tinha 10 anos e acompanhava a mãe a vender peixe pelas aldeias e das longas caminhadas que fazia, deixando-lhe os pés descalços macerados das pedras dos caminhos rústicos. E um dia ouviu a mãe contratar com uma cliente a sua permanência naquela casa como empregada doméstica. Não sabe o tempo que lá passou, pois aos 10 anos muitas coisas desaparecem da memória, porque são demasiadas dolorosas para lembrar. Um dia sabendo o caminho que a mãe percorria no seu trabalho, embrulhou num lenço os restos de roupa que tinha e esperou-a. As lágrimas convenceram a mãe que a levou de volta a casa, onde passou a mesma fome do início, mas agora acompanhada pelo grupo de irmãos. Súbito pelos 12 anos surge um tio de férias do Brasil, casado e sem filhos. Quando lhe perguntou se queria ir com eles, a sua vida encheu-se de modificações. E lá seguiu para o Brasil para uma vida sonhada mais tranquila. Conta então que viveu pela primeira o único tempo de exaltação da sua vida. Tinha 15 anos e conheceu um rapaz por quem se apaixonou. Namoraram pouco mais de um ano. Um dia ele adoeceu e morreu.