Da infância recorda a fome, que aliviava comendo broa cheia de bolor e esperando que o pai chegasse do mar para comer os restos de comida, que sobrasse. Depois fala dos tempos em que tinha 10 anos e acompanhava a mãe a vender peixe pelas aldeias e das longas caminhadas que fazia, deixando-lhe os pés descalços macerados das pedras dos caminhos rústicos. E um dia ouviu a mãe contratar com uma cliente a sua permanência naquela casa como empregada doméstica. Não sabe o tempo que lá passou, pois aos 10 anos muitas coisas desaparecem da memória, porque são demasiadas dolorosas para lembrar. Um dia sabendo o caminho que a mãe percorria no seu trabalho, embrulhou num lenço os restos de roupa que tinha e esperou-a. As lágrimas convenceram a mãe que a levou de volta a casa, onde passou a mesma fome do início, mas agora acompanhada pelo grupo de irmãos. Súbito pelos 12 anos surge um tio de férias do Brasil, casado e sem filhos. Quando lhe perguntou se queria ir com eles, a sua vida encheu-se de modificações. E lá seguiu para o Brasil para uma vida sonhada mais tranquila. Conta então que viveu pela primeira o único tempo de exaltação da sua vida. Tinha 15 anos e conheceu um rapaz por quem se apaixonou. Namoraram pouco mais de um ano. Um dia ele adoeceu e morreu.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
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